• Larissa Maciel

Alice Melo: quero contribuir com o crescimento do esporte mossoroense

A atleta hoje representa a equipe Rio Claro, em São Paulo, e vez por outra volta ao RN.

foto: reprodução

1- lembro que você me contou do incentivo ao esporte através do seu pai! Como foi esse começo? Alguma lembrança marcante?


Tudo começou porque meu pai era maratonista e eu acompanhava os treinamentos dele e de bike. Era um passatempo familiar nos fins de semana e as coisas começaram a ficar mais intensas. um acontecimento marcante da época era que eu acelerava na bike pra que ele pudesse acelerar correndo. Isso me deixou meio estressada e ele comprou uma bicicleta também pra pedalar comigo. Fui levando a sério, ele trabalhava a noite e chegava muito cansado e assim convidou um amigo para me acompanhar nos treinos de ciclismo. Começou a virar uma rotina. O Samuel, amigo do meu pai, se tornou o meu primeiro treinador. Eu tinha 13 anos de idade na época.


2- como começou o crescimento da modalidade? O desejo por competições e consequentemente de sair do estado?

Quando eu participei da minha primeira competição com 13 anos de idade, a intenção de participar da prova gerou uma competitividade em mim que eu não imaginava que eu tinha. Quando eu me vi sendo a última da prova, me deu vontade de treinar mais para ver até onde eu conseguiria chegar. Quando eu tinha os meus 15 anos de idade foi que eu comecei a entender o sentido do esporte na minha rotina. Foi quando ele me consumiu. Pedi minha primeira speed e minha mãe me deu, e comecei a estudar mais sobre o ciclismo. Sempre fui uma pessoa curiosa, admirava atletas de São Paulo como a Valquíria, uma das atletas que mais admiro. Eu não entendi o porquê, era uma coisa que vinha de dentro do meu coração. Talvez pela referência do meu pai, por ele não ter conseguido viver do esporte. Confesso que não sei explicar o porquê que eu sentia isso, mas eu acho que estou me descobrindo recentemente. Essa conexão com o meu pai se tornou algo muito bom para eu querer mais e mostrar que é possível sim realizar. Eu procurava um monte de informações e através do centro de excelência, em São Paulo, e eu consegui me destacar.


3- entre as maiores dificuldades do esporte está, consequentemente a falta de apoio. Hoje você é uma atleta profissional despontando no Brasil e no mundo. Como é essa vivência?


Infelizmente a gente ainda sofre muita dificuldade quanto ao investimento. Porém, quando você faz um projeto bacana, que você tem um autoconhecimento, as coisas se tornam mais fáceis. Muitas vezes a falta de informações no nosso país tornam as coisas mais difíceis, um dos exemplos é o desconhecimento quanto a lei de incentivo ao esporte, do governo federal. Você tem que preparar um projeto, fazer a captação, ver a rentabilidade, isso demora. Uma parte burocrática, trabalhosa até. É difícil ter um atleta que se entregue a uma situação como essa. É difícil encontrar mulheres que queiram trabalhar competindo com o ciclismo de pista. Vai muito da questão cultural do brasileiro para dar murro em ponta de faca. O esporte ele pode ser uma alternativa que ganhe dinheiro, mas demora um pouco. Hoje a gente vive um desejo que muitas equipes não tem coragem de enfrentar. É a cultura do brasileiro e só vai mudar com choque de realidade.


O que posso dizer é: hoje, no nosso país, se tivéssemos pessoas que acreditassem como nossos dirigentes, o negócio iria evoluir. Os projetos de base foram se acabando, existia corrupção. Eu dou graças a Deus que eu participei dos momentos certos. Hoje o que nossa equipe faz é o que o Brasil deveria fazer, mas a seleção brasileira não banca nada das nossas viagens, hoje a gente tem que provar pro comitê olímpico o que tá acontecendo.


4- O ano de 2021 foi muito representativo pra você! O quanto este ano lhe impulsiona no sonho olímpico?


Tudo que a gente estava guardando, a gente conseguiu mostrar. A gente passa por muitas dificuldades por intermédio da Confederação Brasileira. A gente tem dificuldade até de participar de uma Copa do Mundo. Tudo isso por uma questão de ego político. Essas coisas que "pegam" no nosso esporte. Pra você ser um atleta olímpico, você tem que ter no mínimo três anos correndo lá fora para ter um índice, até o final de 2021 estávamos em 20º, mas é preciso estar entre os 18º. Então esse ano vamos buscar viajar mais. Foi um ano sensacional porque mostramos que tínhamos condições e mais motivadas para competir principalmente mostrando fora do país a nossa capacidade. Precisamos aproveitar 100% as viagens pensando nesses dois anos que faltam para a Olímpiada. Hoje o que a gente quer é que a Confederação nos leve para o Panamericano, o Sulamericano, pros jogos Panamericanos do ano que vem, que traga competições para o Brasil.


5- E uma pergunta fora do mundo esportivo. Quem é a Alice Melo além da paixão pelo ciclismo?


A Alice é filha de nordestinos, pessoas humildes, cheia de amor, mãe da amora, uma grande amiga, uma pessoa fiel ao esporte, a disciplina, aos amigos e grata por ter tantas pessoas ao nosso lado. muitas vezes pessoas que não tem certos poderes, mas tem poderes de ouvir. Eu sou talvez tudo isso e lógico, independente de qualquer coisa, uma amante do esporte e que quer contribuir com o crescimento da nossa região, da nossa cidade. Quero ser tratada como uma pessoa que quer o crescimento do esporte mossoroense. Meu pai sofreu muito preconceito por treinar cedo, era tido como louco, é uma pessoa muito especial pra mim e muitos talvez achem que meus ídolos são outros ciclistas, mas não, é o meu pai. Hoje eu quero realizar o que ele não conseguiu.

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