• Larissa Maciel

(in)visíveis gays no futebol brasileiro: mito ou aprisionamento?

Uma produção de Leonardo Matoso.


Por Leonardo Matoso


Quando recebi o convite para escrever sobre jornalismo esportivo e interseccionalidades, meu ego gritou e explodiu imediatamente. Essa exigência me veio bem numa semana de muito borbulhar psíquico, onde inquietações me impeliam de sentar e escrever. Por um lado, o prazer da escrita me levava a pensar sobre qual viela entraria para que pudesse revelar as inquietações do meio esportivo. Mas por outro lado, a memória de uma vida secundária e cheia de marcas logo me atacou, ao passo que fui rememorando, numa construção real ou talvez simbólica: se haveriaespaço na mídia para que jogadores de futebol homossexuais fossem mencionados e tivessem as suas histórias contadas. Outra inquietação, era como a minha infância, inconscientemente, tinha relação com isso.


Ainda me lembro como, ao acordar, relutante, colocava meu fardamento e ia para Escola Estadual 30 de Setembro, na cidade de Mossoró (RN). Eramos anos 2000, eu tinha oito anos e vivíamos sob a presidência do Fernando Henrique Cardoso, um social-democrata. Diria que o último de um regime político e militar, mas não é verdade. Em 2018, viveríamos a sombra de um dos piores momentos do Brasil - mas esse é um relato para outrora.


Na entrada da escola, duas hastes enormes empilhavam no topo a bandeira do Brasil e do Rio Grande do Norte. Tínhamos que formar filas: duas para cada sala de aula, uma de meninos e outra de meninas. Eu sempre fui um garoto muito questionador e a ânsia pela ignorância nunca esteve na minha genética. Naquele momento, percebi meu aprisionamento no sistema sexo-gênero. Como deveria existir filas para meninos e meninas? Nessa época, recordo as brincadeiras durante a fila escolar, onde os garotos mais fortes e corpulentos empurravam os mais fracos e frágeis para a fila feminina, uma fila desqualificada pela genitália. O empurra-empurra só cessava diante do sinal para o hasteamento da bandeira, ondecantávamos o hino nacional. Quando terminava, éramos levados a marchar até a sala, de forma ordenada, robótica e patriota, como soldados em miniatura que marcham para guerra. Na porta da sala, aguardávamos a professora mandar entrar, uma senhora cansada, conservadora, que gritava no olhar que aquilo não deveria mais existir, mas que seguia tal ritual porque o sistema sexo-gênero à excluía, como excluía todos os outros seres da dissidência e destoantes do binarismo vigente.


No final do dia eu era obrigado, mesmo me sentindo reprimido e desqualificado, a fazer atividade física. E a única e exclusiva opção recaia ali, o futebol. O terror de ter que chutar uma bola enquanto muitos corriam atrás de mim com brincadeiras depreciativas ou numa tentativa de me machucar com chutes e pontapés me faziam temer sair das arquibancadas e enfrentar. Esse futebol que muitas crianças conhecem sempre foi uma prática muito distante para mim, mesmo tendo recortes vivenciais de aniversários temáticos de futebol ou do hastear da bandeira da copa do mundo de 1998. Mas essas vivências me foram postas pelo patriarcado e pela genitália masculina que carregava.


Talvez tenha sido essa minha relação traumática e odiosa com o futebol que me fez olhar tão sensivelmente para essa modalidade esportiva. Numa discussão em sala de aula, durante uma disciplina de jornalismo esportivo, que diga-se de passagem, paguei a contravontade, tive a incrível surpresa de conhecer a jornalista Ligia Coeli, e trocar experiências acerca das interseccionalidades do esporte. Foi com ela que entendi que o esporte, na sua essência é marginal e demarca não apenas corpos insurgentes, mas também histórias de superação e corpos políticos. No debate, pontuamos a negritude enquanto periférico dos esportes de rua e como os jogadores negros tinha midiaticamente uma ascensão que transitava entre heroísmo e vilania. Nesse meio, refletimos sobre os corpos performáticos do futebol direcionado aos homens heteros, mas restava ainda uma pergunta: cadê os gays?


É notório que existem gays em todas as profissões. Gays jornalistas, professores, médicos, enfermeiros, advogados, policiais, artistas e políticos. Existem gays construindo casas, dirigindo caminhões de carga, apagando incêndios como bombeiros, salvando vidas como socorristas e pendurados em postes para concertar fios de alta tensão. Mas incoerentemente, não há estatísticas ou notícias que apontem para gays jogadores de futebol em grandes e médias equipes do Brasil. Ou melhor, eles existem, mas estão (in)visíveis, proibidos e encarcerados ao anonimato pelo preconceito e homofobia.


Já era do meu conhecimento a existência de outros esportistas e atletas olímpicos cuja sexualidade fora revelada a contragosto. Uma revelação que os retirou do campo heroico para vilania. Da aceitação pública, para o silenciamento midiático e aprisionamento, em prol da não perca de publicidade e patrocínios. Infelizmente o regime patriarcal, sexista e heteronormativo que circunda na veia e nos campos esportivos, colocaram uma série de atletas na berlinda ao impedirem que fossem eles mesmos. Tendo que se transformarem em um produto cultural vendido e marcado, como bem de consumo, uma vez dentro desse sistema, sair exigia muitos dribles e esquivas.

Numa nota para o Estadão, o ginasta olímpico, Diego Hypolita (35), declarou em 2019 ser um homem gay. Pontuou o quão era difícil estarsob a aceitação do público e como viver nas redes sociais impactou a saúde, uma vez que tem sido alvo de críticas e mensagens de ódio. Já a jogadora de vôlei Tifanny Abreu (37), considerada a primeira mulher transsexual nas competições de vôlei, revelou para Revista Abril que foi cortada de um time masculino por ser homossexual e trans, além de ter sofrido, uma série de cortes publicitários e agressões verbais e psicológicas. Assim como Diego e Tifanny, no Brasil existem uma série de outros esportistas que estão na mesma situação: marcados pela homofobia e discriminação. É válido destacar, que pelaPolitize!, a cada 20 horas, um(a) LGBTQIAP+ morre no Brasil por serem LGBT’s – ou seja, por conta do preconceito e da fobia as minorias sexuais.Essas agressões e preconceitos colocam em cheque não apenas a carreira desses atletas, mas também suas vidas.


Num breve e singelo dossiê das manchetes dos sites de busca, é tomado nota de uma série de atletas LGBTQIAP+ no Brasil, como Ana Marcela Cunha (Natação), Diego Hypolito (Ginasta Olímpico), Lais Souza (Ginasta Olímpica), Amanda Nunes (Lutadora da UFC), Ian Matos (Salto Ornamental), Larissa França (Vôlei de Praia), Mayssa Pessoa (Handebol), Babi Arenhart (Handebol), Isadora Cerrulo (Rugby), Jéssica Andrade (MMA), Rafaela Silva (Judô), Ana Carolina (Vôlei), Carol Gattaz (Vôlei), Tifanny Abreu (Vôlei), Douglas Souza (Vôlei), Marta (Futebol), Andressa Alves (Futebol), Bárbara (Futebol), Formiga (Futebol), Leticia Izidoro (Futebol), Aline Reis (Futebol), Isabela da Silva (Atletismo) e Silvana Lima (Surfe).


Mas cadê os homens do futebol?


Na verdade, a falta de exposição de homossexuais no futebol profissional não é um fenômeno brasileiro, mas mundial. Trata-se de um reflexo de uma cultura machista e alienada, alimentada por todos os atores deste espetáculo, incluindo os próprios atletas e torcedores. São raríssimos os casos de jogadores atuando em grandes ligas que “saíram do armário”. E é consenso, que o primeiro a fazê-lo foi o inglês Justin Fashanu, cuja carreira desenrolou-se entre as décadas de 1980 e 1990.Fashanu, conversou com seu técnico sobre sua sexualidade, ao ponto que ouviram e informaram ao jornal The Sun, do Reino Unido. Imediatamente, o jornal montou uma narrativa e colocou na manchete uma foto do Fashanu intitulado “Soccer Star: I Am Gay”. Questionado, o jogador não negou.


No Brasil, o único caso conhecido envolve o goleiro Messi, cuja carreira jamais alcançou o estrelato. Seu último emprego no futebol foi no Palmeira de Goianinha, do Rio Grande do Norte (RN), em 2019. Apesar de nunca ter tido tanto sucesso por causa de suas qualidades como goleiro, ficou famoso em 2010, quando seu caso foi usado pela Revista ESPN para questionar os dirigentes da época sobre as consequências de um jogador assumir-se gay. Messi hoje tem 35 anos.


O fato é que o futebol está construído sobre um conjunto de valores extremamente patriarcais, misóginos e masculinizantes, ligados a um falso conceito de virilidade e machismo. Ou seja, um homossexual, por ser considerado frágil, não estaria apto a jogar bola. É o dito da arquitetura política sobre os corpos, onde um corpo masculino por ser gay é considerado desqualificado e assimilado a um corpo feminino. Nesse pensamento, vale-se dizer, que na hegemonia vigente, alguns corpos valem mais que outros. Obviamente, isso não passa de preconceito (homofobia), onde os jogadores gays reprimem de expor sua sexualidade ou seu verdadeiro eu por medo das consequências concretas em suas carreiras.


Não o bastante, a torcida também é ator importante nesse processo de validação da homofobia no futebol. Com seus cânticos, muitos de natureza homofóbica, a torcida aumentao nível de pressão sobre os possíveis gays. Além disso, não raras vezes exercem pressão sobre os dirigentes, atuando para impedir a trajetória de jogadores, em tese, gays. O caso mais emblemático no Brasil é Richarlyson. Volante com passagem por grandes clubes, ele jamais empunhou a bandeira LGBTQIAP+ ou disse não ser hétero, mas ainda assim foi alvo de preconceito ao longo de toda a carreira.


Em 2013, Emerson Sheik, atacante campeão da Libertadores e do mundo pelo Corinthians, postou uma foto em uma rede social dando um selinho em um amigo, o empresário Isaac Azar, durante um jantar. Fez para provocar - incentivado justamente por uma conversa sobre homofobia. E conseguiu. Sua relação com a torcida do clube que defende nunca mais foi a mesma. Antes herói e idolatrado, se tornou vilão e alvo. Foi xingado em faixas. Uma delas o chamava de "viadinho". Sheik reagiu dizendo que tudo não passava de um "preconceito babaca".


No final do ano passado (2021), o lateral esquerdo australiano Joshua Cavallo, de 21 anos, que defende o Adelaide United, publicou em suas redes sociais uma mensagem revelando aos seus seguidores que é homossexual. O anúncio de que se relaciona com outros homens, uma informação que não deveria ter impacto nenhum em sua carreira, rapidamente viralizou pelo planeta e fez com que ele recebesse mensagens de apoio de clubes e jogadores importantes no cenário global.Isso fez com que Cavallo se tornasse o único atleta profissional de futebol masculino que publicamente faz parte da comunidade LGBTQIAP+ que está atualmente em atividade em um campeonato nacional de primeira divisão em qualquer canto do planeta.


A narrativa construída em cima da declaração de Joshua Cavallo, levantou um outro assunto, a Copa do Mundo deste ano, no Catar. O país é considerado um dos mais perigosos no mundo para comunidade LGBTQIAP+, onde uma simples demonstração de afeto em público pode levar a prisão de até três anos, fora o índice de violência e mutilações. O próprio Cavallo, após sua declaração, informou nas suas redes sociais que estava com medo de jogar no país.


Nasser Al Khater, líder do comitê organizador da Copa do Mundo, disse em uma entrevista à emissora CNN que "ninguém se sente inseguro" no Catar. Ele ainda comentou que o australiano Joshua Cavallo, único jogador assumidamente gay entre as principais ligas de futebol, será bem-vindo na nação. No entanto, essa afirmação é aversa a realidade, uma vez que o próprio Abdulaziz Abdullah Al Ansari, responsável pela segurança do país, declarou que a proteção de pessoas LGBTQIAP+ não pode ser assegurada durante a Copa do Mundo. Proibindo até mesmo o uso da bandeira gay ou qualquer outro adereço que demarque a homossexualidade.


Em entrevista, o jornalista trans das ESPN Brasil, Caê Vasconcelos (30), respondeu alguns questionamentos acerca do Catar e das nuances que existem no futebol masculino que inibem a saído do armário de alguns jogadores. “Como o brasileiro enxerga o esporte? Tem que ser coisa do homem, de masculinidade agressiva, aquele que pega geral e não pode ser gay. E é bem duro né? Porque nós, torcedores LGBT’s, a gente não se sente acolhido”.


Durante conversa com Caê, perguntei o que ele achava sobre a decisão do Catar em proibir beijos gays e qualquer outra manifestação de afeto durante a Copa do Mundo, uma vez que o País não assegurar medidas protetivas. Para Caê, “é um absurdo essa Copa do Mundo acontecer no Catar, não querendo comparar, porque é algo incomparável, mas o que acontece com a Rússia? A Rússia é um País LGBTfóbico e foi banida de tudo relacionado ao esporte por causa da guerra com a Ucrânia. Mas de nenhuma maneira ela seria excluída desse lugar por ser um País LGBTfóbico. No Catar, recentemente foi proibido a bandeira arco-íris. Nesse caso, o meu corpo nunca poderia ser aceito ali naquele país, isso acaba sendo segregacionista [...]”.


“Acho que dá para gente mudar isso e tem que começar pelos times. O própria Coríntia proibiu o grito de bicha que era ridículo [...]mas parece que isso acontece ainda. [...] os times precisam começar a punir. Infelizmente eu acho que a gente não vai mudar a sociedade pelo punitivísmo. Acho que a gente vai mudar pela educação, conscientização. Mas quando a gente chega no momento, sabe que é errado chamar o colega de Bambi, por exemplo, como o time do São Paula chama, é LGBTfobia. Então os times deveriam punir, se for pego, se as câmeras tiverem filmado, se tiver algum registro, o estádio não é mais lugar para ela, deve ser punido. [...] a melhor forma de mudar isso é os clubes enxergarem, chegou o mês do Orgulho LGBT, então vamos fazer conscientização para que isso não seja mais tolerado, mas no máximo, o que acontece é um post nas redes sociais. Isso não basta”.


O futebol precisa ultrapassar essa imagem de que é um ambiente meramente homofóbico, onde a exclusão social de homossexuais é vista como algo normal. Jogadores não querem conviver com homossexuais pois não querem ser confundidos com estes, e julgam que estes não têm capacidade de encarar uma partida de futebol de igual para igual.Esse pensamento antiquadocoloca os jogadores gays num cárcere em torno da sua própria masculinidade, em prol de sonhos e desejos de ser um jogador heroico, reconhecido, mas que jamais poderá expor sua fragilidade, tendo que ascender cada vez mais os estereótipos de jogadores viril e másculos. Ser um homem não viril, não macho e não encarcerado, é um ato revolucionário e infelizmente, o futebol masculinizado em sua forma mais caricata não está apto para essa revolução.

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