• Larissa Maciel

Uma tabela entre a bola e a folia

A relação do futebol mossoroense com o período carnavalesco.

Uma colaboração do professor Tales Augusto


Este ano novamente sem carnaval, uma de nossas maiores paixões que nos faz falta (pelo menos pra mim que sou folião de carteirinha). Já outra paixão não menor, há tempos anda desaparecida de Mossoró. Ela era vivida e vívida também nos festejos carnavalescos e com uma simbiose maravilhosa com o carnaval, estamos falando do futebol unido aos festejos momescos!


O Brasil é conhecido como país do futebol e do carnaval. Contudo, caso se pergunte se essa casadinha na História no “País de Mossoró” também existia e é antiga? Afirmo que sim. O “Potiba” por exemplo já existia quando pensamos em alusões momescas fora das quatro linhas do Nogueirão ou qualquer outra arena futebolística. Baraúnas e Potiguar possuem elos com o Carnaval há tempos, com áreas e festejos diversos. O marco é centenário, porém, um marco que necessita ser resgatado e comemorado, pois nos aproximamos dos 100 ANOS da criação do Bloco Baraúnas.


Para entendermos melhor, antes de ser criado o time de futebol do Baraúnas, através de um grupo de foliões surgiu o bloco BARAÚNAS. Mas quais os motivos desse nome? Ora, carnaval não é só uma festa que muitos se entregam de corpo e alma aos prazeres pagãos. Por vezes, temos referências socioculturais e a valorização das raízes, respeito a diversidade, dentre outras bases. Escolheram então homenagear o cacique daquela tribo que segundo Luís da Câmara Cascudo teria sido o chefe dos Monxorós, tribo nativa que habitara a região que hoje é Mossoró antes da chegada dos europeus. Inclusive a palavra Baraúnas significa “árvore leguminosa de grande porte que fornece madeira escura, muito resistente e durável”. Assim, o bloco de carnaval tinha identidade de força, resistência e até me lembra o Antônio Nóbrega com o seu “Madeira que Cupim não rói”.


Vamos entender como isto ocorreu, onde e quem o protagonista so surgimento do bloco Baraúnas? O senhor responsável por tudo isso, foi o Vicente Eufrásio em 1924 no bairro Doze Anos. O Leão começava a rugir em Mossoró, com gingado e festa. Esse Doze inclusive nos lembra um 12º torcedor? Rs... Levando-nos a lembrar novamente do futebol. Um colorido tricolor nascia, o estandarte verde, vermelho e branco foram as cores escolhidas por esta agremiação.


Mas e o principal rival do Leão, o time Príncipe, o POTIGUAR DE MOSSORÓ? Vamos lá!


Na semana que antecedia o Carnaval, a cidade já se movimentava e combinavam de ir a sede ACDP (Associação Clube Desportivo Potiguar) para os festejos. Lá não eram só bailes, mas desfiles de fantasias, escolha de representantes do carnaval como o Rei Momo e a Rainha. Hoje, vemos a ACDP parada, sem ações no período momesco e acredito que também noutras questões.


Num ponto há semelhança entre os eventos de carnaval em 2022 e nos carnavais de outrora na ACDP, era pago e hoje sem carnaval de rua, só os que podem pagar terão como brincar o carnaval junto as troças, bandas, etc. Nos idos da ACDP, as cidades de Apodi, Caicó, Areia Branca, Grossos e outras cidades potiguares não tinham o hábito e identidade para atrair os mossoroenses que gostam da folia. Inclusive os que não gostavam, iam para Tibau.


Ressalto que havia espaços diversos em Mossoró para festas de carnaval, além da ACDP, o ACEU, o clube Ipiranga, as ruas, Praça do Pax. O mossoroense tinha vários locais para vivenciar seus sonhos de carnaval. E como Mossoró já teve vários times de futebol, a miscelânia com o futebol existia. Entre os vários foliões que pertenciam também as agremiações desportivas, um não era delas parte. Podemos até pensar que ia a desforra no carnaval, porém não ia sozinho. Tinha um reforço de peso, grande mesmo, com quase quatro times e sei que no coração dele todos eram titulares, pois trabalhei com Neuma, professora de História e uma de suas filhas. Estou falando do juiz de futebol, o homem do Chocalho, seu Duíte, com seus 41 filhos. Já imaginaram essa ruma de gente junta, na folia?


Ele saía com essa trupe maravilhosa pelas ruas da cidade, vale salientar que era ferroviário, mas será que o juiz de futebol torcia também pelo time ou devido ser árbitro, não misturava paixão e trabalho? Opa, o nome verdadeiro do seu Duíte, era João Batista de Amorim.


Eu recordo ainda ter visto o bloco do Baraúnas desfilando na Avenida Alberto Maranhão e depois na Estação das Artes, mas já definhava o carnaval em Mossoró. Hoje nos resta o futebol como alegria local, desvinculado do carnaval e mais, dia a dia nosso protagonismo se limita ao campeonato estadual. O Baraúnas hoje estar na segunda divisão do campeonato estadual, o Leão é lembrado por ter posto o Vasco para dançar, se foi no Rio de Janeiro, então foi samba, concorda? O Potiguar nos representa no estadual, até nos animamos no início da competição como num Frevo, só que esmorecemos, quem sabe o Príncipe não coloque os demais times para dançar no segundo turno?


Por fim, espero que o futebol não morra em Mossoró como o carnaval morreu, ser “túmulo do samba”, das festas populares não é bom. Quem sabe o poder local ressuscite o carnaval e assim a ACDP, os blocos de carnaval como o Baraúnas voltem a ir para a avenida com sua alegria e esta se multiplique, pois este coração carnavalesco ama essa folia, esse gingado e tabela maravilhosa entre a Bola e a Folia! Ótimo Carnaval para todos!


Tales Augusto é amante do futebol, torcedor do Leão do Oeste, professor de História, autor do livro HISTÓRIA DO RN PARA INICIANTES e aluno do Mestrado em Ciências Sociais e Humanas da UERN/Campus Central.

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